1 PAIXÃO E LABAREDAS NO CÉU DE LEIRIA


                                        ESPLENDOR SOBRE A RELVA

1.
     Pierre Bonnechance tinha perdido o encanto dos dias sem mácula. Em vez de estar confiante no prestígio que criara - pois tudo o que fizera fora talhado pela ambição de ser melhor e ser referência - tinha-se acabado. C'est fini. 
      Perdida a notoriedade, a auréola de fulgor, sentia-se rejeitado, proscrito. Pior, estava morto.
       O sofrimento era vagamente amenizado pelo desejo de que as coisas voltassem a ser o que sempre tinham sido, exactamente seis décadas, tantas quantas vivera. Nessas mãos cheias de anos julgados infinitos nunca abandonara o labor de ser o que não: o preto mais branco de Leiria. Não pretendia vestir a pele de branco, apresentar-se como branco. Não, de forma alguma. Era mesmo branco. Pensava como um branco, dizia as piadas de um branco, ria-se das anedotas sobre alentejanos como um branco. E criticava os turras - os pretos - envolvidos na guerra que ardia em Angola e Moçambique, condenando esses terroristas com o patriotismo de um branco.. 
       Estava à beirinha dos sesenta anos mas não esmoecera na ostentação varonil. Alto, direito como uma estaca, ombros largos que disfarçavam a promeminência do estômago. E do rabo, já agora, uma cuzeira típica dos negros. Não se autorizava a deixar passar a oportunidade matinal de mirar-se ao espelho, observando um corpo que até ao momento não dera sinais de envelhecimento. Saudinha era mais que muita, coisa de fazer inveja aos outros.
       «Desta estirpe je suis le dernier des hommes
      Enunciava majestaticamente, assumindo uma pose altiva. Quando referia des hommes, falava de um modo geral de homens brancos. Leirienses ou não. Os negros africanos não entravam nas suas contas. Eram outros, não existiam. E se acaso se recordava deles, era porque lhe vinham ao pensamento como fautores da guerra nas províncias ultramarinas e por via deste os milhares de soldados portugueses mortos, cegos, estrpopiados, avariados do miolo pelo trauma dos combates, dos tiros, minas no chão, bazucadas. 
      E os outros, os turras a soldo do poder comunista? Esses nacionalistas patrióticos como agora lhes chamavam os do partido comunista? 
      Pierre Bonnechance encolhia os ombros, borrifando-se. Je m'en fous complètement.
      Era lá com eles. Se queriam ser pretos que o fossem.

Comentários